Prisioneiros do amor livre
Martha Medeiros
Gosto de ler biografias, ter acesso aos bastidores da vida de alguém que admiro, contada de forma literária, sem o veneno da fofoca: é a investigação longa e precisa sobre um ser humano que, a despeito das virtudes que o tornaram uma celebridade, também possui fraquezas e, às vezes, escorrega como todos nós. A última que li foi a do casal Sartre e Simone de Beauvoir. Em Tête-à-Tête (mais de 450 páginas, editora Objetiva), ficamos sabendo dos pormenores de como se conheceram e como administraram as diversas outras relações amorosas que tiveram até o cerrar das cortinas.
Sempre fui uma entusiasta da produção intelectual dos dois, mas admito que, anos atrás, ao ler as 304 cartas que Simone de Beauvoir escreveu para seu amante americano (Cartas a Nelson Algren, editora Nova Fronteira), fiquei desconcertada com a chatice da autora. Que mulherzinha maçante. Em estado de paixão, ela me pareceu sufocante, manipuladora e, por vezes, até indelicada. Só quando se desapaixonava é que voltava a ser a feminista brilhante que tanta contribuição deu ao mundo.
Agora, lendo Tête-à-Tête, tive uma sensação parecida. Foi com o entusiasmo de sempre que mergulhei no pano de fundo do livro: as discussões em salas de aula da Sorbonne, as ideias que nasceram nos cafés de Saint German e, principalmente, a fascinante teoria defendida por Sartre a respeito da liberdade: para ele, cada ser humano deveria assumir 100% as rédeas da sua vida. Tudo é fruto da nossa escolha, até mesmo quem iremos amar e que tipo de qualidades e defeitos iremos desenvolver em nós. Em sua opinião, não existe isso que chamamos de "a ordem natural das coisas", e por isso ser livre nos parece tão assustador. Sartre optou por não fugir da sua liberdade como muitas pessoas fazem, não admitiu ser regido por códigos preestabelecidos e construiu uma vida a sua maneira.
Teoricamente, acho instigante e excitante. Na prática, porém, é preciso ter cuidado para que isso não vire uma neura. Sartre, conforme a leitura de Tête-à-Tête avançava, me pareceu um prisioneiro da sua própria ideologia, relacionando-se "livremente" mais para comprovar sua tese do que por afetos reais. Por outro lado, Simone me pareceu uma mulher mais sinceramente envolvida com suas paixões, mas era outra prisioneira destas experiências libertadoras: arranjava mulheres para Sartre e depois caía de cama de tanto ciúme e desconcerto. São mentes cintilantes, escritores fundamentais para entender nosso século, mas, quanto ao amor livre, não me pareceram tão livres assim. Sua profunda dedicação ao movimento existencialista, aos estudos e às pesquisas lhes deram a projeção merecida, mas lhes roubaram a chance de desenvolver uma vida amorosa mais espontânea. Mais hippie, se me permitem uma comparação incomum.
No final das contas, fiquei com a impressão de que liberdade é um conceito relativo: quem resolve ser "mulher de um homem só" não é menos livre do que a mulher que intenciona ter o máximo de relações possível. Todas as teorias são claustrofóbicas, pois a tendência é sermos engolidos por elas e nos vermos obrigados a seguir um rumo que talvez não seja condizente com nossa verdadeira inclinação emocional. Seguir nosso desejo é o que nos torna livres, e o desejo é variável, mutante, inclassificável - não pode ser considerado moderno ou antigo, é o que é.
E mesmo que consigamos obedecer apenas aos nossos instintos mais naturais, com toda a liberdade que isso implica, ainda assim pagaremos um tributo ao sofrimento, simplesmente porque viver, seja da maneira que for, nunca é fácil.
Domingo, 15 de abril de 2007.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.